• ONTOCRACIA
    Um Novo Começo
  • “O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior.” Platão (428 – 347 AC)

    Outubro 3, 2019 | News | Paulo Pais
  • Esta frase de Platão pode parecer um apelo ao voto ou um combate à abstenção, mas não é a minha pretensão, nem seria a de Platão.

    Num sistema ontocrático o homem é um ser livre e, ao mesmo tempo, um ser político, que não pode ser confundido com o homem político pertencente a um sistema político ou a um partido.

    Na incessante busca do sucesso financeiro e da conquista material o homem definha e afoga-se solitariamente no seu egoísmo. Entra numa espiral descendente carregada de solidão afastando-se de tudo e de todos em prol do medo da liberdade de ser ele próprio. Para colmatar a solidão resta-lhe recorrer à ilusão do ter ou do pertencer a grupos (associações, partidos políticos, religiões, etc.).

    O sistema político, tal como o conhecemos tem como alicerce o medo da liberdade. Esquecemo-nos que antes de ser matéria somos primeiramente Espírito. Tememos mais a nossa luz do que a nossa sombra. Iludidos pela sombra agarramo-nos cada vez mais às correntes que nos aprisionam e escravizam, agredindo quem nos tenta libertar. Ainda não percebemos que quando a corda rebenta na medição constante de forças (políticas, religiosas, culturais, racistas, partidárias, sexualistas, etc.) quem se encontra nas pontas cai forçosamente. Lutamos uns contra os outros, apenas porque tememos a nossa solidão. Perdemos completamente a capacidade de diálogo e facilmente entramos no “ser a favor” ou “ser contra”, onde não existe diálogo. Tomamos partido deixando de ser inteiros. Servimos as hierarquias, ainda bem presentes na nossa sociedade, de mão beijada. Consideramo-nos inferiores, porque nos dá jeito ter autoridades mais altas a quem recorrer e a quem responsabilizar. Estamos no tempo da alienação, alheios a nós próprios tornando-nos escravos de actividades ou instituições humanas, devido a questões económicas, sociais ou ideológicas.

    Podemos estar alienados, mas a corda vai rebentar mais dia, menos dia. É tudo uma questão de tempo e cabe a cada um de nós a responsabilidade de querer acordar ou continuar a dormir. O preço desta alienação é ser governado por quem é inferior.

    O homem ontocrático é aquele que abdica precisamente de um sistema político onde ele não consegue ser livre.

    Participar na política, não tem nada a ver com votar ou deixar de votar, com direitos ou deveres.

    A política é uma arte, arte de se “bastar a si próprio”. É a arte de observar o que é natural e necessário, para que possa ser verdadeiramente livre, não precisando submeter-se ao domínio de outros para preencher o vazio ou as suas necessidades. Arte de ser livre como indivíduo e arte de estabelecer relações humanas assentes no diálogo e na igualdade.

    O homem precisa conhecer-se a si mesmo, para poder conhecer o outro, apesar de todas as limitações da sua condição humana. Só podemos conhecer o outro se nos conhecermos a nós mesmos.

    As hierarquias deixam de fazer sentido se compreendermos “a nossa utilidade” como indivíduos, uns para os outros dentro de uma sociedade ou dentro do mundo.

    Se a motivação do bem-estar do “um” for igual à motivação do bem-estar do “todo”, então teremos atingido a liberdade de ser e estaremos em condições de criar uma nova estrutura política, em que a nossa vontade vai fazer com que nos sintamos seres ontocráticos e livres. Ser político na ontocracia é ser humano (“homem sábio”), com carácter e com sentido igualitário motivado pelo princípio do bem-estar do “um” e do “todo”. O poder não tem lugar na ontocracia, já que não existem inferiores nem superiores (hierarquias). “Um por todos e todos por um”, onde cada indivíduo conta. Só seremos verdadeiramente livres se estivermos dispostos a olhar para dentro (conhecer-se a si próprio) do “um” e do “todo”. Se compreendermos que o ovo é tão importante como a galinha. Tudo o que está fora é um reflexo do que está dentro.

    Estamos a partir o ovo e a ostracizar a galinha. A questão de fundo “Quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha?”, não vai haver necessidade de responder.

    Boa reflexão
    Paulo Pais