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  • O Mito da caverna de Platão (sair do ilusório para o real)

    Setembro 26, 2019 | News | Admin
  • Depois de ver o video e se não está familiarizado com o “mito da caverna” ou “alegoria da caverna” de Platão aconselho-o a ler o texto apresentado abaixo – O diálogo de Sócrates e Glauco.

    A alegoria apresentada mostra-nos como os seres humanos têm uma visão distorcida da realidade. A caverna simboliza o mundo, apresentando-nos imagens que não representam a realidade. Só é possível conhecer a realidade, quando nos libertamos, ou seja, quando saímos da caverna.

    Esta é uma história desde a absoluta ignorância até à absoluta sabedoria.
    A sabedoria do homem que está fora da caverna flui até ao mais humilde dos homens contando que ele tenha amor à sabedoria.

    O homem que saiu da caverna não pode ser feliz sozinho, porque sabe que toda a humanidade está a sofrer. Ele é um homem, o homem apela sempre à fraternidade. Não pode ser feliz porque todos os outros estão na caverna. Quando ele volta torna-se um ser político (não confundir com o homem político pertencente a um sistema político). Ele atingiu um determinado nível de consciência, que para ajudar a humanidade ele tem que voltar a descer. Ele faz isso apenas pela compaixão. Se uma pessoa deseja um lugar de poder é porque está abaixo. Quem está lá em cima não tem nada a ganhar com isso. Não tem desejo, tem sacro-ofício. Ele sabe que se não descer a humanidade vai continuar a ser explorada por alguém (os donos da caverna que querem tirar proveito da ignorância dos outros. Aqueles que manipulam através da eterna insatisfação.)

    No mito a Fogueira: É ela que gera as sombras. Ela representa o fogo dos desejos humanos.

    Os donos da caverna : Estão presos pela ambição. Querem tirar proveito da ignorância dos outros. Manipulam através da eterna insatisfação.

    O Sol: (o bem): Só vendo as coisas iluminadas pela luz do sol (ideia do bem, do amor humano, sem querer manipular) nos tornamos sábios. Tudo é iluminado pela luz dos nossos interesses. Há quem passe pela floresta e só veja lenha para a fogueira. Só vemos aquilo que nos interessa.

    Boa reflexão

    O diálogo de Sócrates e Glauco

    Trata-se de um diálogo metafórico em que as falas na primeira pessoa são de Sócrates e seus interlocutores, Glauco e Adimanto são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade.

    Sócrates – Agora, imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

    Glauco– Estou vendo.

    Sócrates– Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

    Glauco– Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

    Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

    Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

    Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

    Glauco — Sem dúvida.

    Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

    Glauco — É bem possível.

    Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

    Glauco — Sim, por Zeus!

    Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?

    Glauco — Assim terá de ser.

    Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

    Glauco – Muito mais verdadeiras.

    Sócrates – E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

    Glauco – Com toda a certeza.

    Sócrates – E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

    Glauco – Não o conseguirá, pelo menos de início.

    Sócrates – Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

    Glauco – Sem dúvida.

    Sócrates – Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

    Glauco – Concordo.

    Sócrates – Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

    Glauco – É evidente que chegará a essa conclusão.

    Sócrates – Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

    Glauco – Sim, com certeza, Sócrates.

    Sócrates – E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

    Glauco – Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

    Sócrates – Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

    Glauco – Por certo que sim.

    Sócrates – E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

    Glauco – Sem nenhuma dúvida.

    Sócrates – Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha ideia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a ideia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

    Glauco – Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

    (Platão. A República. Livro VII)

    Texto retirado de: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alegoria_da_Caverna