• ONTOCRACIA
    Um Novo Começo
  • Analisar Deus à luz das estruturas atuais é muito fácil  já que conseguimos banalizar a palavra “Deus” e cada vez mais estamos a separar-nos do verdadeiro sentido e nome de Deus.

    Como diz Krishnamurti “Os vossos deuses estão a dividi-los, as vossas crenças em Deus estão a dividi-los”. De crença em crença andamos à procura de Deus fora de nós, como se existisse uma entidade ou entidades diferente(s) para cada um de nós, para cada grupo, para cada nação, etc. Não nos entendemos e parece que nunca nos vamos entender, porque todas estas divisões servem propósitos bem mais altos do que aqueles que imaginamos. Propósitos divinos? Ou os propósitos de alguém?

    Ao longo dos tempos fomos definindo Deus como um ser supremo omnisciente, omnipotente, omnipresente, incorpóreo, imaterial, etc.

    Posso estar enganado, mas esta procura incessante de um Deus ou Deuses fora de nós, mais cedo ou mais tarde vai colocar-nos frente a frente com esta ou estas divindades reais que tanto procuramos. Estamos a enganar-nos a nós próprios sem sequer nos darmos conta do quanto nos estamos a condicionar e a aprisionar dentro da rede montada com o nosso consentimento.

    A realidade que se afigura bem à frente dos nossos olhos, não é mais do que a criação do deus que tanto procuramos fora de nós. Um deus supremo omnisciente, omnipotente, omnipresente, incorpóreo, imaterial, etc. Vejam como os governos atuais, para não falar num governo mundial, estão a adquirir as características de um deus supremo. Eles têm o poder ilimitado, sabem tudo sobre nós, estão em todo o lado, não sabemos quem são, etc. Não nos podemos queixar porque é um deus criado por nós. Não percebo como ainda ficamos chocados com a desigualdade, com a violência, com a desonestidade, com a fome, com a desobediência, com o ódio, com a indiferença, com a impunidade, com a guerra, com a morte, etc., etc., etc. Um tema que não se esgota e que deixa cada vez mais o humano escandalizado com a sua própria criação. Para nos justificarmos, temos que encontrar um culpado e o Deus verdadeiro das nossas crenças é aquele que vai ser questionado e colocado em causa, perante uma crença de um criador que só existe, porque nos dá jeito ou porque não temos sequer uma resposta, ou porque é fácil culpar quem nunca se vai queixar.

    As conversas sobre Deus são tendenciosas e consistentes, cheias de certezas, passionais, bem argumentadas, com todas as referências bíblicas possíveis para silenciar o ouvinte que precisa urgentemente de acreditar em algo ou alguém. Um verdadeiro comício do partido divino, tal e qual como o comício dos partidos políticos que nos fazem crer nas maiores mentiras, apregoadas como verdades absolutas. Vende-se o conceito de Deus ao desbarato em busca de contrapartidas dúbias e em nome de uma salvação de quem se sente perdido.

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    “Portanto, o que está a acontecer? Os vossos deuses estão a dividi-los, as vossas crenças em Deus estão a dividi-los e contudo falam sobre a fraternidade do homem, da unidade em Deus, e ao mesmo tempo negam precisamente aquilo que querem descobrir, porque se mantêm fiéis a estas crenças como o meio mais potente de destruir a limitação, que apenas a intensificam.( Krishnamurti)

    Onde é que Deus entra nesta equação da Ontocracia?

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    “Afirmo que há algo imenso, incomensurável, imperscrutável; há uma inteligência suprema, mas não a podem descrever. Como podem descrever o sabor do sal se nunca o provaram? E são as pessoas que nunca provaram sal, que nunca estão conscientes desta imensidade nas suas vidas, que começam a perguntar se eu acredito ou se não acredito, porque a crença para elas é muito mais importante que essa realidade que podem descobrir se viverem correctamente, se viverem verdadeiramente; e como não querem viver verdadeiramente pensam que a crença em Deus é algo essencial para se ser verdadeiramente humano.( Krishnamurti)

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    Deus não se define através de uma definição retirada de um dicionário ou de ideologias bacocas. Há que “provar o sal” e só assim podemos vivenciar Deus, Aquele que se expressa em cada um de nós. Deus não pode ser catalogado porque Ele É. Ele é o caminho, a verdade e a vida. É na nossa rotina diária que Ele se manifesta verdadeiramente sem a necessidade de crer ou de definir o que já É. Não precisamos de questionar o ar que respiramos, simplesmente respiramos e ponto final. Podemos viver sem ele? Deus existe? Afinal o que é que existe? Podemos viver sem o que É. Podemos não o manifestar, assim como podemos deixar de respirar? O verdadeiro humano é aquele que é consciente de quem É, e não só o produto da imitação inerente à sua condição animal.

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    Pergunta: Acredita em Deus? É ateu?

    Krishnamurti: Suponham que todos vocês acreditam em Deus. Deve ser assim, porque são todos Cristãos, pelo menos afirmam sê-lo, portanto devem acreditar em Deus.

    Ora, porque é que acreditam em Deus? Por favor, vou responder dentro em pouco, portanto não me chamem ateu, ou teísta. Porque é que acreditam em Deus? O que é uma crença? Vocês não acreditam em algo que é óbvio, como a luz do sol, como a pessoa que está sentado ao vosso lado; não têm que acreditar. Ao passo que a vossa crença em Deus não é real. É uma esperança, uma ideia, uma ânsia preconcebida que pode nada ter a ver com a realidade. Se não acreditarem, mas se se tornarem realmente conscientes dessa realidade na vossa vida, tal como têm consciência da luz do sol, então toda a vossa conduta de vida seria diferente. Presentemente, a vossa crença nada tem a ver com a vossa vida diária; portanto, para mim, quer acreditem em Deus quer não é irrelevante, (Aplausos) Por favor não se incomodem em bater palmas. Há muitas perguntas para responder.

    Portanto a vossa crença em Deus, ou a vossa descrença em Deus, para mim é a mesma coisa, porque não tem realidade. Se estivessem realmente conscientes da verdade, como estão conscientes daquela flor, se estivessem realmente conscientes dessa verdade como estão conscientes do ar fresco ou da falta desse ar fresco, então toda a vossa vida, toda a vossa conduta, todo o vosso comportamento, os vossas próprios afectos, os vossos próprios pensamentos, seriam diferentes. Quer se denominem crentes ou descrentes, pela vossa conduta não o estão a mostrar; portanto quer acreditem em Deus quer não acreditem é de muito pouca importância. É apenas uma ideia superficial imposta pelas situações e pelo meio, através do medo, através da autoridade, através da imitação. Por isso, quando dizem, “Acredita? É ateu?” eu não posso responder-lhes categoricamente; porque, para vocês, a crença é muito mais importante que a realidade. Afirmo que há algo imenso, incomensurável, imperscrutável; há uma inteligência suprema, mas não a podem descrever. Como podem descrever o sabor do sal se nunca o provaram? E são as pessoas que nunca provaram sal, que nunca estão conscientes desta imensidade nas suas vidas, que começam a perguntar se eu acredito ou se não acredito, porque a crença para elas é muito mais importante que essa realidade que podem descobrir se viverem correctamente, se viverem verdadeiramente; e como não querem viver verdadeiramente pensam que a crença em Deus é algo essencial para se ser verdadeiramente humano.

    Portanto, ser um teísta ou um ateu, para mim, ambas as coisas são absurdas. Se soubessem o que é a verdade, o que é Deus, não seriam nem teístas nem ateus, porque nessa consciência a crença é desnecessária. O homem que não está consciente, que somente espera e supõe, é que conta com a crença ou com a descrença para o apoiar e para o levar a agir de uma maneira específica.

    Agora, se abordarem o assunto de maneira bastante diferente, descobrirão por vocês próprios, como indivíduos, algo real que está para além de todas as limitações das crenças, para além da ilusão das palavras. Mas isso – a descoberta da verdade, ou Deus – requer grande inteligência, que não é a afirmação da crença ou da descrença, mas o reconhecimento dos obstáculos criados pela falta de inteligência. Portanto para descobrir Deus ou a verdade – e eu digo que tal coisa existe, eu tive consciência dela – para reconhecer isso, para ter consciência disso, a mente tem que estar livre de todos os obstáculos que foram criados através dos tempos, baseados na auto-protecção e na segurança. Não podem libertar-se da segurança dizendo apenas que estão livres. Para penetrarem os muros desses obstáculos, precisam de muita inteligência, não apenas de intelecto. A inteligência, para mim, é mente e coração em plena harmonia; e então descobrirão por vocês próprios, sem perguntar a ninguém, o que é essa realidade.

    Agora, o que está a acontecer no mundo? Têm um Deus Cristão, Deuses Hindus, Maometanos com o seu conceito particular de Deus – cada pequena seita com a sua verdade particular; e todas estas verdades estão a tornar-se como as muitas doenças no mundo, separando as pessoas. Estas verdades, nas mãos de minorias, estão a tornar-se meios de exploração. Vocês vão a cada uma delas, uma após a outra, provando-as todas, porque começam a perder o sentido de discriminação, porque estão a sofrer e querem um remédio, e aceitam qualquer remédio que seja oferecido por qualquer seita, seja Cristã, Hindu, ou qualquer outra. Portanto, o que está a acontecer? Os vossos deuses estão a dividi-los, as vossas crenças em Deus estão a dividi-los e contudo falam sobre a fraternidade do homem, da unidade em Deus, e ao mesmo tempo negam precisamente aquilo que querem descobrir, porque se mantêm fiéis a estas crenças como o meio mais potente de destruir a limitação, que apenas a intensificam.

    Estas coisas são tão óbvias. Se forem Protestantes, têm horror aos Católicos Romanos; e se forem Católicos Romanos, têm horror de todos os outros. Isto acontece em todo o lado, não só aqui. Na Índia, entre os Maometanos, entre todas as seitas religiosas acontece isto; porque para todos, a crença – essa coisa cruel – é mais vital, mais importante, que a descoberta da verdade, que é a verdadeira humanidade. Por isso, as pessoas que acreditam tanto em Deus não estão realmente apaixonadas pela vida. Estão apaixonadas por uma crença, mas não pela vida, e por isso os seus corações e mentes murcham e se tornam em nada, são vazios, superficiais.

    (Texto extraído de :  http://jiddu-krishnamurti.net/pt/krishnamurti-o-que-e-a-accao-correcta/1934-04-01-krishnamurti-o-que-e-a-accao-correcta)

  • 1 comment

    Muito bom, adorei !! ❤️

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