• ONTOCRACIA
    Um Novo Começo
  • “Os homens por vezes são tão cegos que até sentem orgulho na sua cegueira.”
    (Santo Agostinho)

    Quando será que vamos começar a abrir os olhos? Eu quero acreditar na humanidade, mas por vezes o descrédito é tal que também quero desistir e fechar os olhos. Aceitar ser conduzido sem discutir, sem duvidar, sem pesquisar, sem pensar é bastante confortável. Que orgulho, que liberdade, que exemplo.

    De vez em quando resolvo abrir os olhos, mas logo os volto a fechar porque vejo que nada mudou. Vejo que o mundo continua na mesma, repetindo e repetindo, mais do mesmo, mais do mesmo. Uma roda que roda onde a única coisa que muda são as pedras da calçada. Um mundo onde o humano cada vez mais se desumaniza agarrado aos instintos mais primários do animal que existe dentro dele. O animal que existe em nós é o nosso ponto fraco, sobejamente conhecido, mas mesmo assim, deixamos que ele seja explorado pelo poder económico, pelos políticos, pela religião, pela publicidade, pelos meios de comunicação social, etc. Em contrapartida procuramos humanizar tudo o que se mexe à nossa passagem, e que não seja verdadeiramente humano. Procuramos humanizar desde os animais até às máquinas criadas por nós. Quem será que estamos a desumanizar? Será que é o próprio do ser humano?

    Julgo que não seja assim tão difícil de responder. Espero abrir os olhos, talvez num agora, num momento, e veja que afinal, tudo não passou de um pesadelo. Até lá vou abrindo os olhos de vez em quando e fazendo a minha parte, porque sinto que devo acreditar na humanidade.

    Deixo como reflexão o seguinte texto de Jiddu Krishnamurti que nos fala sobre a EDUCAÇÃO.
    O conhecimento de nós mesmos é que poderá proporcionar a grande e, talvez, a única reforma que pode levar o homem a uma vida que faça jus à sua condição de humano.

    A Educação

    “O homem ignorante não é o sem instrução, mas aquele que não conhece a si mesmo. Insensato é o homem intelectualmente culto ao crer que os livros, o saber e a autoridade lhe podem dar a compreensão. A compreensão só pode vir com o autoconhecimento, que é o conhecimento da totalidade do nosso processo psicológico. Assim, a educação, no sentido genuíno, é a compreensão de si mesmo, pelo indivíduo, porque é dentro de cada um de nós que se concentra a totalidade da existência.

    É evidentemente necessário saber ler e escrever, aprender engenharia ou outra profissão qualquer, mas a técnica nos dará a capacidade de compreender a vida? Ora, sem dúvida, a técnica é coisa secundária e, se a técnica é a única coisa pela qual estamos a lutar, neste caso estamos a negar o aspecto mais importante da vida. A vida é dor, alegria, beleza, amor, e, quando a compreendemos globalmente, em toda a sua variedade, essa compreensão cria a sua própria técnica. Mas o inverso não é exacto: a técnica nunca produzirá a compreensão criadora.

    O exclusivo cultivo da técnica tem produzido cientistas, matemáticos, construtores de pontes e conquistadores do espaço. Compreenderão esses homens o processo total da vida? Pode um especialista experimentar a vida como um todo? Só se deixar de ser especialista.

    Escolhemos uma profissão de acordo com as nossas aptidões, mas seguir uma profissão libertará o homem do conflito e da confusão? Uma dada espécie de preparo técnico parece necessária porém, depois que nos tornamos engenheiros, médicos, contabilistas, o que acontece? A prática de uma profissão representa o preenchimento da vida? Parece que sim, para a maioria de nós. As nossas várias profissões mantêm-nos ocupados durante a maior parte da existência, mas as próprias coisas que criamos e das quais tanto nos maravilhamos causam destruições e desgraças. As nossas atitudes e valores estão a fazer das coisas e das profissões instrumentos da inveja, do ressentimento e do ódio.

    Creio que já se escreveram muitos volumes sobre ideais educativos e, entretanto, estamos mais confusos agora do que nunca. Não existe método de educar uma criança para ser um ente integrado e livre. Enquanto só estivermos interessados em princípios, ideais e métodos, não ajudaremos o indivíduo a libertar-se da actividade egocêntrica, com todos os seus temores e conflitos.

    Se começarmos a compreender o indivíduo directamente, em vez de o olharmos através da cortina da nossa ideia do que ele “deveria ser”, estaremos então interessados no que é. Então, já não desejaremos transformar o indivíduo em outra coisa. O nosso único empenho será o de ajudá-lo a compreender-se, e nisso não há motivo pessoal egoísta ou lucro algum. Se estamos plenamente conscientes do que é, haveremos de compreendê-lo e libertar-nos dele mas, para estarmos conscientes do que somos, temos de desistir de lutar por algo que não somos.

    Os ideais não têm lugar na educação porque impedem a compreensão do presente. Por certo, só podemos estar conscientes do que é se não estamos a fugir para o futuro. O interesse no futuro, a luta por um ideal denota indolência mental e o desejo de evitar o presente.

    Não necessitamos de idealistas ou entidades de mentes mecânicas, mas de entes humanos integrados, inteligentes e livres. Ter, apenas, um plano de uma sociedade perfeita significa pugnar e derramar sangue pelo que “deveria ser”, voltando-se as costas ao que é.

    Todo método de classificar as crianças segundo os seus temperamentos e aptidões põe em relevo as suas diferenças, cria antagonismo, fomenta divisões na sociedade e não ajuda a produzir entes humanos integrados. Evidentemente, nenhum método ou sistema pode promover a educação correta, e a estrita aderência a determinado método denota indolência da parte do educador. Enquanto a educação se fundar em princípios rígidos, poderá produzir homens e mulheres proficientes, mas nunca formará entes humanos criadores.

    A mais alta função da educação consiste em produzir um indivíduo integrado, capaz de entrar em relação com a vida como um todo. O idealista, tal como o especialista, não está interessado no todo, mas apenas na parte. Não poderá haver integração enquanto estivermos interessados em algum padrão ideal de acção; e a maioria dos preceptores, que se mostram idealistas, repudiaram o amor; o seu espírito é árido e de coração insensível. Para estudarmos uma criança devemos estar muito atentos, vigilantes, bem conscientes dos nossos próprios pensamentos e sentimentos, e isso requer muito mais inteligência e afeição do que estimulá-la a seguir um ideal.

    Outra finalidade da educação é a de criar novos valores. Inculcar, simplesmente, na mente da criança os valores prevalecentes, fazê-la ajustar-se a ideais, é condicioná-la, sem despertar-lhe a inteligência. A educação está estreitamente ligada à presente crise mundial, e o educador que percebe as causas deste caos universal deve perguntar a si mesmo como despertar a inteligência do estudante e contribuir, deste modo, para que a geração futura não produza novos conflitos e desastres. Cabe-lhe consagrar todo o seu pensamento, todo o seu desvelo e cuidado à criação do ambiente adequado e ao desenvolvimento da compreensão, para que, atingindo a madureza, a criança seja capaz de atender inteligentemente aos problemas que a vida lhe oferecer. Mas, para fazê-lo, precisa o educador compreender a si mesmo, em vez de confiar em ideologias, sistemas e crenças.

    O pai que realmente deseja compreender o filho não o olha através da cortina de um ideal. Se ama o seu filho, observa-o, estuda-lhe as tendências, disposições e peculiaridades. Só quando não temos amor à criança é que lhe impomos um ideal, porque então pretendemos ver realizadas nela as nossas próprias ambições e queremos que ela seja isto ou aquilo. Quem ama não o ideal, mas a criança, tem a possibilidade de ajudá-la a compreender-se tal como é. Se uma criança mente, por exemplo, que adianta confrontá-la como o ideal da verdade? O importante é descobrir por que ela mente. Para ajudar a criança, necessitamos de tempo para estudá-la e observá-la, e isso requer paciência, amor e carinho; mas, quando não temos amor, quando não temos compreensão, forçamos a criança a agir conforme um padrão a que chamamos “ideal”.

    Enquanto as crianças são muito novas, devemos, é claro, protegê-las contra danos físicos e não deixar que se sintam fisicamente inseguras. Mas, infelizmente, não paramos aí; queremos formar as suas maneiras de pensar e de sentir, queremos moldá-las de acordo com as nossas próprias aspirações e intentos. Buscamos preencher-nos em nossos filhos, perpetuar-nos através deles. Erguemos muralhas em redor deles, condicionamo-los às nossas crenças e ideologias, temores e esperanças — e depois choramos e rezamos quando morrem ou ficam mutilados nas guerras, ou quando as experiências da vida lhes infligem sofrimentos.

    A finalidade da educação é cultivar relações corretas, não só entre indivíduos, mas também entre o indivíduo e a sociedade; eis a razão por que é essencial que a educação acima de tudo ajude o indivíduo a compreender o seu próprio processo psicológico. Consiste a inteligência em o indivíduo compreender-se, ultrapassar e transcender a si mesmo; mas não pode haver inteligência se existe medo. O medo perverte a inteligência, é uma das causas da acção egocêntrica. A disciplina pode reprimir, mas nunca suprimir o medo, e o saber superficial que recebemos na educação moderna só serve para escondê-lo mais ainda.

    Os jovens deixam-se facilmente persuadir, pelo sacerdote, pelo político, pelo rico ou pelo pobre, a pensar de determinada maneira; mas a educação correta deve ajudá-los a estar vigilantes contra essas influências, para que não se ponham a repetir chavões como papagaios, ou venham a cair nas armadilhas habilmente dissimuladas da avidez, deles próprios ou de outrem. Não devem permitir que a autoridade lhes sufoque a mente e o coração. Seguir outra pessoa, por maior que seja, aderir a uma ideologia agradável não produzirá jamais um mundo pacífico.

    Para compreendermos uma criança, devemos observá-la quando brinca, estudá-la em suas diferentes disposições; não podemos “projectar” nela os nossos próprios preconceitos, esperanças e medos, ou moldá-la e ajustá-la ao padrão dos nossos desejos. Se estamos constantemente a julgar a criança de acordo com os nossos gostos e aversões pessoais, é inevitável que criemos barreiras e obstáculos nas nossas relações com ela e nas suas relações com a vida. Infelizmente, em geral, queremos formar a criança de maneira que satisfaça as nossas próprias vaidades e idiossincrasias; sentimos, em graus variáveis, conforto e satisfação na posse e no domínio exclusivos.

    A educação correta vem com a transformação de nós mesmos. Devemos reeducar-nos para não nos matarmos mutuamente por nenhuma causa, por mais “sagrada” que seja, por ideologia alguma, por mais que prometa a felicidade futura para o mundo. Devemos aprender a ser compassivos, a contentar-nos com pouco, e a procurar o Supremo, porque só então poderá ocorrer a verdadeira salvação da humanidade.”

    (Jiddu Krishnamurti)