• ONTOCRACIA
    Um Novo Começo
  • Vivemos num mundo dual, num mundo de contraste.

    O nosso cérebro só consegue criar definições por contraste, ou seja, não há hipótese nenhuma de sabermos o que é “o alto” se não soubermos o que é “o baixo”.

    Neste mundo dual só podemos saber o que é através do que não é. Através do seu oposto.

    O conceito de economia engloba a noção de como as sociedades utilizam os recursos para produção de bens com valor e a forma como é feita a distribuição desses bens entre os indivíduos.

    A economia é uma máquina que produz riqueza, mas também é uma máquina que produz pobreza. Não pode ser de outra forma.

    Dentro deste universo dual a riqueza não existe sem a pobreza e vice-versa. A abundância não existe sem a escassez. A segurança não existe sem a insegurança.

    É importante perceber que todos estes conceitos andam de mãos dadas.

    Partindo deste pressuposto, pode-se afirmar que quanto maior for a riqueza, maior é também a pobreza. Uma nunca anula a outra. Uns cada vez mais ricos e outros cada vez mais pobres.

    Os indivíduos cada vez mais ricos, mais se afastam dos indivíduos cada vez mais pobres. Sabendo disto, é fácil perceber como funciona e como é conduzida a máquina económica.

    As crises económicas e financeiras não são mais do que revisões periódicas inventadas pelo capitalismo instituído. Quando este se sente ameaçado e quando percebe que está em causa a sua sobrevivência incita o medo e procura gerar o pânico nas camadas mais desfavorecidas da sociedade.

    A máquina económica pode então ser oleada e estruturada da forma que bem entenderem não necessitando de mais explicações nem de desculpas. Tudo por causa da crise. Está montado o cerco e este só será quebrado em circunstâncias muito especiais.

    Vendo a máquina económica como um barco, posso afirmar que este também pode ir ao fundo em determinadas circunstâncias. Por vezes a solução passa mesmo por ir ao fundo porque as verdades de ontem podem já não ser as verdades de hoje. No entanto, é preciso muito para que tal aconteça.

    A máquina económica continua a brincar com a condição humana. É o lobo mascarado de cordeiro. Tem como premissa levar todos à abundância (à riqueza), mas como sabemos, não pode haver riqueza se não houver pobreza. Quando a riqueza ou o número de ricos começa a aumentar o número de pobres também tem que aumentar. Os ricos alimentam-se dos pobres e os pobres alimentam-se dos ricos.

    Se todos fossem ricos ninguém trabalhava. É a necessidade que estimula os pobres a trabalhar. Caso contrário morreriam de fome.

    Todo este enredo parece não ter solução. É um jogo que nunca termina. É um jogo perigoso.

    Pois parece… O problema é que nada dura para sempre. “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.”

    Um dia o barco vai afundar e nesse dia vamos perceber que vamos morrer. Vamos perceber que estamos todos no mesmo barco. Ricos e pobres, só que desta vez não vai haver contemplações, nem reajustes possíveis. Vão dizer-me que ainda nos resta saber nadar. Pois, mas nadaremos para onde?

    Mesmo que alguns consigam sobreviver ao naufrágio, será que vão conseguir subsistir? Será que ainda temos conhecimento dos meios de subsistência?

    A máquina económica não vai parar e não vai descansar enquanto não aniquilar o último sobrevivente com capacidades de subsistência.

    Não podemos viver fora do barco, porque já não sabemos o que isso é. Só nos resta morrer, embora indignos. Até a dignidade do pobre lhe será tirada.

    Neste planeta existe mais do que suficiente para todos vivermos em harmonia. A agricultura mundial produz mais do dobro daquilo que necessitamos. No entanto isso não interessa. Dizem que o ser humano já ultrapassou o limiar da sobrevivência, mas esquecemo-nos que por definição, por contraste, o que temos do lado oposto é precisamente a morte. “Quem ao mais alto sobe ao mais baixo vem cair”. A ignorância está a matar-nos aos poucos sem nos apercebermos. A máquina económica está a matar-nos aos poucos sem nos apercebermos. A tecnologia desenfreada está matar-nos aos poucos sem nos apercebermos. Será que estamos a perder a nossa humanidade? Será que estamos a ficar mais “burros”? Não tenho dúvidas. Partindo do princípio do contraste, o cérebro humano tem como contraste o intestino. Já estamos a consumir chips e bytes e acreditem que o nosso intestino não está preparado para tamanho avanço tecnológico. A consequência passa então a ser óbvia. O cérebro começa a ter os dias contados.

    Desprovidos de cérebro tornamo-nos animais ferozes e o “circo” começa novamente. Voltam os contrastes da crueldade, da tirania, da opressão, etc. Algo que o mundo já conheceu, conhece e vai voltar a conhecer. Com tudo isto não pretendo incutir o medo, já que nada nos pode surpreender. Nada do que disse é novidade, ou pelo menos, não deveria ser. É uma constatação e uma realidade bem presente no mundo de ontem, de hoje e de amanhã.

    O ser humano encontra sempre uma maneira de renascer das cinzas. É um facto, mas a que preço?

    A máquina económica em prol do “haverá para todos”, da abundância e da riqueza, apenas disfarça a grande miséria que continuamos a ver mundo. Em prol da liberdade, apenas disfarça a submissão, o controle e a prisão.

    Preferimos viver numa gaiola dourada, do que ser realmente livres. As asas dos que desejam voar, são cortadas em prol da segurança dos cada vez mais inseguros. Estamos presos pela ambição.


    Queremos tirar proveito da ignorância dos outros. Manipulamos através da eterna insatisfação e insistimos na exploração da incompletude da vida humana.

    Neste momento acho que sou como o índio que invoca o espírito da chuva. Uma vida super repetitiva, que roda, que roda, mas não sei para quê.

    Boa reflexão